A Mulher de Todos, Brasil, Comédia, 1969, 93 minutos
Direção: Rogério Sganzerla
Elenco: Helena Ignez, Jô Soares, Stênio Garcia, Paulo Villaça
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 16 anos
Áudio original em português, sem legendas

“Não quero mais homem bacana. Só dá trabalho. Nesse fim de semana vou me dedicar aos boçais. É mais fácil.” São
essas as palavras com que Ângela Carne e Osso anuncia a sua intenção de passar o fim de semana na Ilha dos
Prazeres – local descrito por Flávio, um de seus muitos amantes, como uma “depravação”, um lugar onde “só dá louco e imbecil”. Os julgamentos de Flávio pouco importam a Ângela; ela está mais interessada em dar vazão à sua sexualidade voraz, fora das fronteiras estreitas da moralidade brasileira dos anos 60. Embora ela tente manter as suas tarefas extraconjugais longe dos olhos de seu marido – o rico e excêntrico Doktor Plirtz –, o homem delas desconfia. Sem poder acompanhá-la na viagem, coloca um de seus capangas para segui-la nos tentadores cenários da Ilha dos Prazeres. Lá, Ângela constrói uma história de sedução e perdição, um palco em que ela, com sua voz melodiosa e requebros cheios de volúpia, fascina e consome todos os homens ao seu redor.
Ângela Carne e Osso é uma representação, dentro da proposta estética do Cinema Marginal, do antigo arquétipo da
femme fatale. Essas personagens, presentes no folclore, na literatura e no cinema, são belas mulheres que, com seus
mistérios e charme, encantam e seduzem os homens, trazendo a eles a ruína. Elas acompanham a humanidade a
milênios, sob variados nomes e rostos. Na mitologia judaica, aparece com o nome Lilith; está presente também nas
representações históricas da figura de Cleópatra, e mesmo em narrativas bíblicas, na forma de Eva e Jezabel, por
exemplo. Em diversos momentos, as femmes fatales ganharam contornos sobrenaturais, sendo representadas como
bruxas ou – na literatura gótica do século XIX – como vampiras. Ângela dialoga com essa última tradição, apesar de a narrativa estar contida nos limites do realismo: em uma cena de grande lascívia, ela, na cama com um amante, morde o seu pescoço até extrair dali sangue em profusão.
O filme, polêmico desde o lançamento, é um importante marco do cinema brasileiro, fruto de um momento em que, sob o peso da ditadura, a Sétima Arte procurou combinar a crítica política sutil com o experimentalismo e a busca de uma identidade nacional no cinema.

Luan Augusto Machado de Lima

Confira aqui o trailer