| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos,
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Número 23, Janeiro de 2004 | Artigo |

A
primeira missa de São Paulo de Piratininga é o marco do
nascimento da cidade.
Antes da chegada dos
portugueses ao Brasil, os povos ameríndios já haviam
ocupado todo território latinoamericano em 9000 a. C., sendo que
em 2000 a. C.
já se praticava a agricultura em todos os cantos do país.
Na região onde hoje é o Estado de São Paulo, se
encontravam as famílias indígenas dos tupi, dos guarani e
dos jê, famílias estas
compostas de vários troncos linguísticos e
inúmeros dialetos. Com a chegada dos portugueses, iniciou-se um
processo de genocídio dos indígenas, pois dos três
milhões e meio de
ameríndios nos idos do século XVI, temos hoje um pouco
mais de duzentos mil indivíduos. Além deste
extermínio em massa, temos também a
escravização (subjulgando-os à
exploração colonial), a expulsão de suas terras, o
desrrespeito à sua cultura e linguagem (em paralelo ao processo
de catequização), além das inúmeras mortes
por doenças trazidas pelos colonizadores (uma simples gripe era
um vírus fatal para uma sociedade que o desconhecia e não
possuía os anti-corpos necessários). A
visão portuguesa do Brasil era uma imensa terra sem dono, em
eterna primavera e inocência. O gesto de batizarem a todos os
lugares com o nome dos santos dos dias (Todos os Santos, São
Sebastião, São Vicente, Monte Pascoal) confirma sua
idéia de propriedade da terra, enquanto construção
sócio-política que hoje conhecemos. Passado quase
meio século de escravização indígena, sob
defesa dos jesuítas, são criadas diversas leis (reais e
eclesiásticas) que negavam a escravização do
índio, sendo substituída pelo negro africano (devido aos
altos lucros que esta rendia: "vão-se os navios com escravos,
retornam-se as especiarias e outros artigos tropicais"). Os negros
trazidos da África para o Brasil são, em sua maioria,
vindos de Benguela (na costa oeste africana), Moçambique e
Mombaça (na costa leste). Para os jesuítas, os negros
eram inferiores e, por isto, não se importavam com sua
escravidão. Para a corte, tanto importava negro ou índio,
contanto que o tráfico de escravos rendesse lucro e
se evitasse problemas com a Igreja Católica.

A
única diferença entre a escravidão indígena
e negra na história do Brasil é o lucro.
Assim, a história de São Paulo, como hoje conhecemos, inicia-se como uma interseção de caminhos vindos da Capitania de São Vicente (fundada em 1532 pelo português Martim Afonso de Souza). A escolha do local como povoado, ou seja, ponto de fixação humana, em meio à Mata Atlântica, foi estratégica pelo planalto que se configura como um descanso, após a íngreme subida pela Serra do Mar.

O contraste da Serra da Cantareira
com a metrópole contemporânea se deve à sua
localização em suas origens.
Os únicos
trechos de São Paulo realmente com 450 anos de
colonização portuguesa são as
imediações do Pátio do Colégio. O Pátio do
Colégio era antes apenas um acampamento jesuíta:
a edificação começou a ser construída
após a primeira missa de
São Paulo de Piratininga (ilustrada no topo do texto), em 25 de
Janeiro de 1554, sendo
concretizada em 1º de Novembro de 1555. Inicialmente era
apenas uma pequena casa de jesuítas, medindo 14 por 10 passos
(o equivalente a 90 m²): logo
após tornaria-se também colégio de
jesuítas (motivo de hoje ser conhecido por Pátio do
Colégio), enfermaria, cozinha e refeitório.
A partir de então, foi cenário das mais importantes
atividades
educacionais,
cívicas, culturais
e
religiosas
ocorridas na cidade. Futuramente, em 1770, o Pátio abrigou a
sessão
inaugural da Academia Paulista de
Letras (outrora conhecida por "Academia dos Felizes"). Em 1882,
após reforma,
passou a ser o Palácio do Governo. Hoje, torna-se novamente
importante
para a cidade como centro cultural e histórico, recebendo
uma média de 5 ônibus escolares, 40 visitantes brasileiros e 10
estrangeiros ao dia, que buscam um pouco das origens da história
da cidade.

O Pátio do Colégio,
acima em ilustração de 1824, e abaixo, a estátua
do padre Manoel da Nóbrega e a fachada principal. Note que
à direita da ilustração é possível
ver o que ainda restou da edificação, como mostra a foto
da direita.
Para além desta região, a história
da cidade é bem mais recente. Até 1711, São Paulo
ainda era uma vila colonial, só então elevada à
categoria
de cidade por D. João VI. Ainda assim, nos primeiros três
séculos de ocupação da cidade, São Paulo
não passou de apenas um entreposto comercial, suprindo tropeiros
e bandeirantes de mantimentos e equipamentos na sua busca por
indígenas (para a catequização e trabalhos
agrícolas), quilombos
de escravos fugidos e, posteriormente, ouro. Os bandeirantes de
São Paulo eram os
mais cruéis, sendo Domingos Jorge Velho o responsável
pela prisão dos índios cariris e janduís,
além da destruição do quilombo de Palmares (na região entre Sergipe e
Pernambuco) em 1654. Outros bandeirantes paulistas se destacaram
nas bandeiras em busca de ouro, como Antônio Rodrigues de
Arzão, que descobriu o metal em Cataguases (Minas Gerais), em
1693, ou Antônio Dias Oliveira, que fundou Vila Rica (atual Ouro
Preto, Minas Gerais) em 1698, ou ainda Borba Gato, que em 1700
encontrou ouro em Sabará (também em Minas Gerais). A
visão romântica de que os bandeirantes eram heróis
paulistas deve-se ao valor da história paulista após a
Revolução Constitucionalista de 1932, melhor explicitada
adiante.

A criação de gado na região de
São Paulo, em especial próximo à Sorocaba, visava
atender às demandas alimentícia e de animais de carga da
mineração e agricultura. Em
1858, com o deslocamento da
produção cafeeira do Rio de Janeiro para o Vale do
Paraíba e o interior do Estado de São Paulo, a capital
tornou-se em ponto de encontro de telégrafos e das estradas de
ferro inglesas (com a
inauguração da São
Paulo Railway em 1960, e da primeira Estação da
Luz em
1864) que escoavam a produção agrícola para o
porto de Santos - este é o ponto que divide a história
paulistana de uma economia colonial e escravocrata para o
início de uma ordem liberal de mercados. Neste momento
também se funde uma contradição: para a nova elite
oligárquica do café, não havia contracenso entre o
trabalho escravo (de origem colonial) e o liberalismo econômico
(rumo à uma sociedade moderna).


Acima,
a colheita do café, seguido do processo de secagem, ensacamento
e transporte nas carroças puxadas por burros.
Abaixo, cenas do Porto de Santos escoando o café paulista para o
exterior.

Em 1850 é criada a Lei de Terras, defendendo que
todas as terras são públicas, só tornando-se
propriedade de um indivíduo por venda. Com o término da
escravidão, em 1888,
estes escravos são acumulados nos cortiços, sem trabalho,
visto que a mão-de-obra será trocada por imigrantes
europeus (principalmente italianos, mas também de portugueses e
espanhóis). Para se ter idéia do número de
habitantes que representavam os imigrantes europeus, em 1893, 55% da
cidade era de origem estrangeira. Com a Lei de Terras e apoiados pela
visão sanitarista, os cortiços centrais foram sendo
combatidos pelo Governo e a população empurrada para as
periferias, dando início às primeiras favelas.

O
bairro do Bixiga, em imagem de 1862: a maioria dos imigrantes italianos
e dos ex-escravos fixaram aqui suas habitações
No final do século XIX, o Brasil começa a
ter alguns traços mais urbanos. Em 1887, a província de
São Paulo possuía 57 cidades e 69 vilas. Os centros
urbanos se modernizavam com praças, teatros, hotéis,
transporte, iluminação à gás e atividades
comerciais. Em 1880, São Paulo e Campinas já
possuíam serviço telefônico. Em 1835, São
Paulo possuía 95% de analfabetos: em 1887, a porcentagem
caíu para 55%. Quase todos os artigos vinham importados da
Inglaterra, da pólvora à agulha, passando por
mantimentos, calçados e cerveja. Mas todas estas melhorias
eram destinadas apenas às elites. Aos pobres e ex-escravos, a
vida
continuava difícil e miserável.
O poder de São Paulo amplia-se
mais com o início da República Velha e a
alternância de presidentes dos Estados de São Paulo e
Minas Gerais, representantes das oligarquias agrícolas dos mais
ricos fazendeiros do país
(período conhecido também como a República do
"Café com Leite"). Esta parceria pelo poder seguiu do fim da
"República da Espada" em 1894 (com os Marechais Deodoro da
Fonseca e Floriano Peixoto) até
1930, quando a crise da Bolsa de 1929 afetou fortemente o poder econômico dos
fazendeiros, já que seu café foi desvalorizado e as
vendas ao exterior foram diminuídas. Somam-se a isto as
inúmeras
descontentações dos oligarcas dos demais Estados (que
ficaram fora deste
joguete do poder), além dos industriais paulistas, que
começavam a se
fortalecer. O início da
industrialização aproveitou a renda e a infraestrutura
cafeeira - principalmente as estradas de ferro e as
comunicações - e cresceu com a
Primeira Guerra Mundial, já que os artigos importados deveriam
ser substituídos por nacionais, pois a Inglaterra agora se
ocupava
principalmente com a indústria bélica. Neste ano, o
então presidente Washington Luís, do Partido Republicano
Paulista, deveria indicar um sucessor do Partido Republicano Mineiro,
mas escolheu
Júlio Prestes, também um paulista. Os oligarcas mineiros,
descontentes, apoiaram Getúlio Vargas (do Rio Grande do Sul) e
João Pessoa (da Paraíba). As eleições deram
à Júlio Prestes o cargo do Governo da República
(através de voto de cabresto e manipulações
eleitorais, que faziam do processo democrático algo não
idôneo),
mas após sucessivos golpes e o assassinato de João
Pessoa,
Getúlio Vargas é nomeado Presidente em 3 de Novembro de
1930.
Com o populista
Vargas, temos os primeiros traços de um Governo Federal
investindo maciçamente na industrialização de base.
Mas o conflito entre as oligarquias paulistas e o Governo Federal foram realmente graves. Inconformados com o fim de seu domínio sobre o Governo, reclamam a volta das eleições e da Constituição. O movimento, conhecido como a revolução Constitucionalista de 1932, foi engrossado por estudantes, engenheiros, advogados, médicos e alguns operários. Em 23 de Maio, durante uma manifestação contra o Governo, morreram os estudantes Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Souza e Antônio Américo de Camargo Andrade. Em suas homenagens, os paulistas utilizavam da sigla tirada de seus nomes (MMDC) como lema da luta. A revolução inicia-se em 9 de Julho, apenas com o apoio do sul do Mato Grosso. Famílias inteiras se alistavam, inclusive mulheres. Doavam seus bens e jóias de família para a causa. As indústrias paulistas se adaptaram para fornecer material bélico, como lança-chamas, capacetes, granadas e máscaras contra gás. O Governo Federal isolou as tropas paulistas, encerrando com batalhas violentas entre Agosto e Setembro. O conflito teve fim em 2 de Outubro de 1932, com a assinatura da Convenção Militar. Uma nova Constituição foi promulgada em 16 de Julho de 1934, repetindo várias determinações da Carta Magna de 1891, mas garantindo o voto feminino, o voto secreto, várias leis trabalhistas (como salário mínimo, jornada de 8 horas diárias, férias, indenizações e assistência médica), o direito à igualdade e à liberdade política e religiosa e que as riquezas do subsolo brasileiro seriam propriedade estatal.

Com Getúlio
Vargas, o Brasil passa a ter sua indústria de base, isto
é, produção de materiais que sirvam de base para
outras indústrias, como o aço (através da
Companhia Siderúrgica Nacional - CSN), o petróleo e seus
derivados (pela Petrobrás), a indústria química
(com a Companhia Nacional de Alcalis), energia elétrica
(Eletrobrás), os recursos minerais (obtidos através da
Companhia Vale do Rio Doce), além da Fábrica Nacional de
Motores. Isto abriu caminho para, nas décadas de 1960 e
1970, durante a Ditadura Militar (e o período conhecido como
"milagre econômico") houvesse a chegada das indústrias e
dos capitais multinacionais, em
especial as montadoras de automóveis, muitas delas que se
situaram na região metropolitana de São Paulo, conhecida
por ABCD (Santo André,
São Bernardo,
São Caetano e Diadema). O movimento
sindical cresceu em paralelo. A cidade começa a se reconfigurar:
bairros populares perdem suas características principais e se
degradam, seja por intervenções urbanas equivocadas (como
o viaduto Costa e Silva, também conhecido como Minhocão,
que corta literalmente, isto é, secciona um bairro tradicional,
como o Bixiga, e a partir da implantação desta via
expressa, o ruído, a poluição e o próprio
cenário se comprometem), seja por falta de investimento
público (várias administrações investiram
praticamente 80% dos recursos da Prefeitura na rica região da
marginal do rio Pinheiros, esquecendo o resto da cidade). Mas este e os
outros debates sobre a São Paulo de hoje é o assunto do
próximo artigo.

Cenas
de manifestações e greves em defesa dos salários
dos operários paulistas.
" Nessa época as lojas da cidade
tinham ganho outra animação, com a frequência de
mulheres fazendo suas compras sozinhas. A vida social em São
Paulo intensificou-se. Após a proibição dos
mergulhos no Tamanduateí e o aparecimento de clubes de
natação e regatas às margens do Tietê, o
esporte tomou impulso. Por influência dos ingleses, foi
introduzido o futebol, logo entusiasmando a população;
apareceram as primeiras quadras de tênis e de bola-ao-cesto, e
ganharam destaque as corridas de cavalos, em hipódromos
recém-construídos. Aos domingos, a principal
distração do povo era ir passear no jardim do Ipiranga,
onde se divertia andando de carrossel, assistindo aos teatrinhos de
bonecos, participando de uma quantidade de jogos e
competições. Ia-se a piqueniques, a sessões de
circo, a concertos de bandas no coreto do Jardim da Luz, a
reuniões dançantes em clubes recreativos, a
espetáculos de teatro, de óperas, de operetas.
Como em todas as cidades do Brasil, havia
o famoso footing, passeio a
pé, numa rua ou numa praça - moças de um lado,
rapazes do outro - trocando olhares, sorrisos, bilhetinhos. Foram
célebres no passado os footings da rua 15 de Novembro e da Rua Direita.
Várias confeitarias haviam-se tornado muito conhecidas, sendo
ponto de reunião obrigatória para famílias
inteiras, que lá iam tomar sorvetes, saborear doces e ouvir sua
orquestra. Os freqüentadores de teatro movimentavam à noite
os restaurantes e os cafés, onde tomavam refrescos ou ceavam
após os espetáculos. As livrarias mais importantes
transformavam-se em local de encontro de escritores, jornalistas e
estudantes, para gostosos bate-papos, comentários
políticos e larga troca de idéias.
O progresso aumentou dia a dia quando
novos hábitos e costumes, trazidos por uma onda crescente de
imigrantes, vieram influenciar a vida paulista, tornando São
Paulo o modelo de uma cidade dinâmica e cosmopolita, em
contínua expansão."
Sérgio Buarque de
Holanda, em O lazer em São
Paulo
no início do
século.

Inauguração da primeira
linha de bonde para o Bom Retiro, em 12 de Maio de
1900. A primeira linha de bonde de São Paulo data de 7 de Maio
de 1900.

Moinho Matarazzo, em 1900.

Alunos da escola Caetano de Campos, em 1901.


A Estação da Luz, em seu três momentos, em 1865, em
gravura de 1870 e de 1903.

Largo da Sé, em 1904.

Carnavalescos comemorando em 1908, na Lapa.

Inauguração do Teatro Municipal, em 1911.

Regatas no rio Tietê, em 1917.

Ocupação de estudantes em defesa de presos
políticos, na delegacia do Cambuci, em 1924.

Carnaval na avenida Paulista, em 1926.

Mercado Municipal em dois momentos: à esquerda em 1890, à
direita em 1933.

O vale do Anhangabaú e seu viaduto do Chá, em 1890 e em
1934.

Agencia dos Correios &
Telégrafos, em 1938.

Casamento típico, em 1940.

Partida de futebol no Estádio Municipal do Pacaembu, em 1941.

Palácio das Indústrias, em 1943.

Estação Júlio
Prestes, no final da década de 1940.

Avenida São João, em 1951.
Fontes
de Pesquisa:
© Revista Eletrônica de Ciências - Número 23 - Janeiro de 2004.