| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos,
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Número 21, Agosto / Setembro de 2003 | Artigo |
Alessandra
A. Viveiro
Estudante do curso de Licenciatura em
Ciências Exatas do IFSC-USP - Instituto de Física de
São Carlos da Universidade de São Paulo

À
esquerda, o médico sanitarista Oswaldo Cruz.
À direita, o Rio de Janeiro (capital do país até a
construção de Brasília, em 1960) em registro
fotográfico de aproximadamente 1900.
Oswaldo Cruz queria livrar o Rio de Janeiro da varíola, mas na primeira campanha de vacinação, há 100 anos, a cidade virou um campo de batalha.
Entre os dias 10 e 18 de novembro de 1904, a cidade do Rio de Janeiro viveu o que a imprensa chamou de “a mais terrível das revoltas populares da República”. O cenário era desolador: bondes tombados, trilhos arrancados, calçamentos destruídos — tudo feito por uma massa de 3000 revoltosos. A causa foi a lei que tornava obrigatória a vacina contra a varíola. E o personagem principal, o jovem médico sanitarista Oswaldo Cruz.

A oposição política, ao sentir a
insatisfação popular, tratou de canalizá-la para
um plano arquitetado tempos antes: a derrubada do presidente da
República Rodrigues Alves. Mas os próprios insufladores
da revolta perderam a liderança dos rebeldes e o movimento tomou
rumos próprios. Em meio a todo o conflito, com saldo de 30
mortos, 110 feridos, cerca de 1000 detidos e centenas de deportados,
aconteceu um golpe de Estado, cujo objetivo era restaurar as bases
militares dos primeiros anos da República.

A revolta foi sufocada e a cidade, remodelada, como queria Rodrigues Alves. Hoje, a varíola está extinta no mundo todo. E a Organização Mundial da Saúde, da ONU, discute a destruição dos últimos exemplares do vírus da doença, ainda mantidos em laboratórios dos Estados Unidos e da Rússia.
Rodrigues Alves assumiu a presidência da República em 1902, no Rio de Janeiro, sob um clima de desconfiança e com um programa de governo que consistia basicamente de dois pontos: modernizar o porto e remodelar a cidade. Isso exigia atacar o maior mal da capital: doenças como peste bubônica, febre amarela e varíola.
A futura “Cidade Maravilhosa” era, então, pestilenta. Segundo
a
oligarquia paulista do café, de quem Rodrigues Alves era
representante, além de vergonha nacional, as
condições sanitárias do Rio impediam a chegada de
investimentos, maquinaria e mão-de-obra estrangeira. O projeto
sanitário deveria ser executado a qualquer preço.
Rodrigues Alves nomeia, então, dois assistentes, com poderes
quase ditatoriais: o engenheiro Pereira Passos, como prefeito, e o
médico sanitarista Oswaldo Cruz, como chefe da Diretoria de
Saúde Pública. Cruz assume o cargo em março de
1903: “Dêem-me liberdade de ação e eu exterminarei
a febre amarela dentro de três anos”. O sanitarista cumpriu o
prometido.

Charges da época retrata Oswaldo Cruz em campanha e a
insatisfação popular.
Em nove meses, a reforma urbana derruba cerca de 600 edifícios e casas, para abrir a avenida Central (hoje, Rio Branco). A ação, conhecida como “bota-abaixo”, obriga parte da população mais pobre a se mudar para os morros e a periferia.
A campanha de Oswaldo Cruz contra a peste bubônica correu bem. Mas o método de combate à febre amarela, que invadiu os lares, interditou, despejou e internou à força, não foi bem sucedida. Batizadas pela imprensa de “Código de Torturas”, as medidas desagradaram também alguns positivistas, que reclamavam da quebra dos direitos individuais. Eles sequer acreditavam que as doenças fossem provocadas por micróbios.
Jacobinos e florianistas, que já articulavam um golpe contra o presidente Rodrigues Alves, perceberam que poderiam canalizar a insatisfação popular em favor de sua causa: a derrubada do governo, acusado de privilegiar os fazendeiros e cafeicultores paulistas.
No dia 31 de outubro, o governo consegue aprovar a lei da vacinação. Preparado pelo próprio Oswaldo Cruz - que tinha pouquíssima sensibilidade política -, o projeto de regulamentação sai cheio de medidas autoritárias. O texto vaza para um jornal. No dia seguinte à sua publicação, começam as agitações no centro da cidade.
Financiados pelos monarquistas — que apostavam na desordem como um meio de voltar à cena política —, jacobinos e florianistas usam os jornais para passar à população suas idéias conspiradoras, por artigos e charges. Armam um golpe de Estado, a ser desencadeado durante o desfile militar de 15 de novembro. Era uma tentativa de retornar aos militares o papel que desempenharam no início da República. Mas, com a cidade em clima de terror, a parada militar foi cancelada. Lauro Sodré e outros golpistas conseguem, então, tirar da Escola Militar cerca de 300 cadetes que marcham, armados, para o palácio do Catete.
O confronto com as tropas governamentais resulta em baixas dos dois lados, sem vencedores. O governo reforça a guarda do palácio. No dia seguinte, os cadetes se rendem, depois que a Marinha bombardeara a Escola Militar, na madrugada anterior. No dia 16, o governo revoga a obrigatoriedade da vacina, mas continuam os conflitos isolados, nos bairros da Gamboa e da Saúde. Dia 20, a rebelião está esmagada e a tentativa de golpe, frustrada. Começa na cidade a operação “limpeza”, com cerca de 1000 detidos e 460 deportados.
Mesmo com a revogação da obrigatoriedade da vacina, permanece válida a exigência do atestado de vacinação para trabalho, viagem, casamento, alistamento militar, matrícula em escolas públicas, hospedagem em hotéis.
Em 1904, cerca de 3 500 pessoas morreram de varíola. Dois anos depois, esse número caía para nove. Em 1908, uma nova epidemia eleva os óbitos para cerca de 6 550 casos, mas em 1910 é registrada uma única vítima. A cidade estava, enfim, reformada e livre do nome de “túmulo dos estrangeiros”.
Cerca de quinze tipos de moléstia faziam vítimas no
Rio
do início do século. As principais, que já
atingiam proporções epidêmicas, eram a peste
bubônica, a febre amarela e a varíola. Mas havia
também sarampo, tuberculose, escarlatina, difteria, coqueluche,
tifo, lepra, entre outras.

Para combater a peste bubônica, Oswaldo Cruz formou um
esquadrão especial de 50 homens vacinados que percorriam a
cidade espalhando raticida e mandando recolher o lixo. Criou o cargo de
“comprador de ratos”, funcionário que recolhia os ratos mortos,
pagando 300 réis por animal. Já se sabia que eram as
pulgas desses animais as transmissoras da doença.

Selo em homenagem ao médico
cubano Juan Carlos Finlay (1833 a 1915).
Em 1881, o médico cubano Carlos Finlay havia identificado o mosquito Stegomyia fasciata como o transmissor da febre amarela. Cruz, então, criou as chamadas “brigadas mata-mosquitos”, que invadiam as casas para desinfecção. No primeiro semestre de 1904, foram feitas cerca de 110 000 visitas domiciliares e interditados 626 edifícios e casas. A população contaminada era internada em hospitais.
Mesmo sob insatisfação popular, a campanha deu bons
resultados. As mortes que em 1902 chegavam a cerca de 1 000, baixaram
para 48. Cinco anos depois, em 1909, não era registrada, na
cidade do Rio de Janeiro, mais nenhuma vítima da febre amarela.
Em 1907, de volta de uma exposição na Alemanha, onde fora premiado por sua obra de combate às doenças, Cruz sente os primeiros sintomas da sífilis. Envelheceu rapidamente: aos 30 anos, tinha já cabelos brancos. A sífilis causou-lhe insuficiência renal. Mais tarde surgiram problemas psíquicos. Os delírios se intensificaram e conta-se que muitas vezes foi visto à noite, vagando solitariamente pelas dependências do Instituto Manguinhos, que ele próprio ajudara a projetar, em 1903, e que receberia o nome de Instituto Oswaldo Cruz em 1908.
Em 1916 foi nomeado prefeito de Petrópolis. A cidade,
envolvida
em disputas políticas, não recebe bem a
nomeação. Oswaldo Cruz morreu, em 11 de fevereiro de
1917, com uma passeata de protesto em frente à sua casa.
Meihy, J.C. & Bertolli Filho, C. Revolta da vacina. São Paulo: Ática, 1995. (Coleção Guerras e Revoluções Brasileiras, v.5);
Sevcenko, N. A revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Scipione, 1993. (História em Aberto).
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